Gabriel Bonz · Resenha Pop

mother! (2017): pancadas

A mais nova polêmica do cinema gira em torno do filme mother! do aclamado diretor Darren Aronofsky. Estrelado por Jennifer LawrenceJavier BardemMichelle PfeifferEd Harris e os irmãos Gleeson, é um filme-arte, niilista e com uma proposta cinematográfica bastante intensa e diferente. Dentro da filmografia do diretor, esse filme se aproxima estilistacamente mais de suas obras-primas (Réquiem for a DreamCisne Negro), mas, tematicamente, se aproxima de NoéFonte da Vida.

Mas, o que é mais importante nesse filme são as pancadas que ele insiste em te dar desde o começo.

O filme conta de uma maneira bastante alegórica duas histórias bíblicas: a história de Adão e a história do Apocalipse. Isso fica claro logo no início: Lawrence é a Mother, Bardem é Ele, Harris é o Homem, Pfeiffer é a Mulher. Isso dado, os personagens nunca são nomeados e permanecem assim até o final do filme. Podemos dividir o filme em duas grandes passagens distintas: uma primeira, que conta a história de Adão, e uma segunda, que conta com o Apocalipse.

Vou analisar aqui cada aspecto de toda a composição do filme, pois o tema e o seu impacto em mim vão estimular a produção de outros textos baseados no filme.

Em primeiro lugar, a direção do filme é algo que eu tenho algumas picuinhas, mas são picuinhas bastante bestas. Tenho uma tendência própria de não curtir muito diretores que fazem questão de se mostrarem presentes, principalmente com relação à utilização das câmeras. Porém, nesse filme, a utilização da câmera sempre focada na visão de Lawrence das coisas, foi necessária à condução narrativa do filme. Essa maneira de filmar mostra toda a inocência que o diretor queria passar pela figura de Lawrence; mas, mesmo assim, o quão autossuficiente ela é.

Continuando nessa toada, a entrega de Lawrence está impecável. Com toda a certeza é o melhor papel interpretado pela atriz – que, na minha modesta opinião, era apenas um baita hype de Hollywood, que vem se mostrando o contrário pra mim. Lawrence mostra como a natureza é pura e doce, mesmo que seja consciente da realidade e da dureza da vida. O amor que ela sente por Deus é maravilhoso, e ela consegue expressar isso no seu olhar.

Os outros atores são ofuscados pelo brilho de Lawrence, com exceção de Michelle Pfeiffer, que consegue estar a altura. Bardem e Harris estão bastante apagados, mas os irmãos Gleeson são bastante intensos e, mesmo com uma participação pontual, entregam Caim e Abel de uma forma que transforma a toada do filme e que encaixa muito bem no que vinha acontecendo.

A fotografia do filme é bastante interessante, e os recursos imagéticos de Aronofsky são bons – mesmo que um tanto quanto óbvios. A referência à “folha em branco” que é Lawrence e como ela está se preenchendo sozinha, sem a necessidade de Deus, não precisava ter sido retratada tão obviamente pela cena da parede. Além disso, na segunda metade do filme, a fotografia se perde um pouco, pendendo pra escuridão características de climas apocalípticos – mas que eu achei particularmente desnecessário. O jogo de cores é interessante, porém não muito significativo. O filme não nos apresenta uma direção de arte inspirada, no todo.

A condução é calma e paciente, sem nenhuma grande barriga. O ritmo do filme e a edição – com vários planos-sequência que ditam um filme bastante sereno – são competentes e não deixam você se entediar. A segunda metade, principalmente, é bastante intensa. O filme em si tem momentos extremamente tensos – principalmente aqueles em que Lawrence está sozinha explorando a sua criação que foi afetada pelos “intrusos”.

O que mais dá fôlego pro filme, porém, é a sua argumentação. O roteiro é extremamente bem conduzido, muito bem enlaçado e com uma montagem digna de Oscar. A tensão e o alívio são usados em sintonia para conduzir o espectador e Lawrence dentro da toada que se quer levar. As duas mensagens básicas são bastante interessantes: a passividade da figura da mulher, dominada e conquistada autoritariamente pela figura masculina do Deus cristão; e também a passividade dos personagens dentro de uma configuração em que não há nenhum tipo de ação possível de ser realizado. Tanto Lawrence quanto Bardem são tomados de assalto pelos acontecimentos do filme, sem saber o que fazer – e tomam decisões opostas.

Eu saí bastante chocado e mexido da sessão; mother! foi um filme tão poderoso quanto Corra! pra mim, mas talvez um pouco mais forte, provavelmente por lidar com temas que me afetam mais do que os de Corra! – afinal, não sou negro. Um filme que te enche de pancadas para mostrar o quão Deus é maligno.

Nota: 9,0/10,0.

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