Filmes · Gabriel Bonz · Resenha Pop

O Filme da Minha Vida (2017): quando um filme conversa contigo

Alguns dias da semana eu estou numa bad violenta. Nesses dias poucas coisas conseguem me animar, e a ansiedade e a angústia dominam o meu ser de uma maneira bastante difícil de lidar. Afinal, lidar com essa ansiedade e essa angústia envolve lidar com demônios particulares que, sinceramente, não tenho muita vontade de remexer com eles – muito menos sozinho.

Daí eu vou no cinema sozinho pra tentar esquecer os meus problemas nos problemas – ou então nas simples histórias – que a sétima arte tem a me proporcionar. E, quando fui assistir O Filme da Minha Vida, do diretor Selton Mello, era basicamente isso que eu tinha em mente: esquecer a ansiedade e a angústia. E esse filme me inspirou um pouco mais aquele dia.

O filme conta a história do rapaz Tony Terranova (Johnny Massaro) na passagem dos 20 anos, provavelmente na década de 1930 ou 40 – primeiro trigger comigo, pois é exatamente essa fase que eu estou. Tony foi para a capital estudar francês para se tornar professor – uma língua cujo pai, francês, compartilha e o ensinou. Porém, quando ele chega na cidade de volta dos seus estudos, o pai está indo embora – a cena, que só vai aparecer realmente lá pelo final do filme, é bem bonita, aliás. Nesse ínterim, o rapaz tem que lidar com toda a fase de transformação, junto do trauma da “fuga” do pai – tentando passar a figura paterna para Paco (Selton Mello), um amigo da família meio chucro. A cidade não é nomeada, mas fica no interior do Rio Grande do Sul ou Santa Catarina – mencionam as idas à fronteira como algo comum – e, em sua pacatez de cidade do interior, criam-se os personagens e seus arquétipos. Por ser baseado num romance latino-americano, essa concepção comunitária

Luna (Bruna Linzmeyer) é a menina interessante que busca fugir da mesmice e da normalidade da cidade pequena, sonhando em viajar pelo mundo; Petra (Bia Arantes), sua irmã, volta à cidade depois de aventuras na cidade grande. Os personagens se relacionam muito pouco: o grande fio da meada do filme é o personagem de Johnny Massaro – que entrega uma atuação bem medíocre, na verdade, sendo um dos pontos fracos do filme. As outras atuações em si são de medianas para boas, com destaque pra Bia Arantes e pra Bruna Linzmeyer, que estão muito bem, e também Vicent Cassel, que interpreta Nicolas, pai de Tony. A tensão sexual que a relação entre Tony e as meninas nos mostra é muito forte por conta da atuação de ambas, e não da cara de tacho de Johnny.

A fotografia do filme é um destaque à parte. Os cortes de cena e a localização da câmera são muito bem pensados, mostrando uma direção segura e coesa. Tecnicamente, um filme impecável. A história é bem morna, se torna um pouco insuportável em alguns momentos devido à má atuação de Johnny. O ato final também é corrido, e a resolução do filme é ruim – não conheço o livro que baseou o filme, então não posso falar se já é um erro sobre a obra original. Porém, eu gostei muito do filme. Mais do que eu deveria gostar, provavelmente.

Os 20 e poucos anos são uma fase complexa, difícil – ainda mais quando combinada com um trauma, como é o caso de Tony. A tomada de decisão, a questão sexual, a grandeza e pequeneza dos problemas. Tudo isso se relaciona numa história em que tudo para Tony tem muito significado. Mas esse significado tem qual grandeza? Os significados que Tony dá para as atitudes, para seu próprio sofrimento, como ele ressignifica o mesmo dentro das escolhas e das expectativas que ele tem. E, mesmo desconfiando – com razão – de Paco, ele segue fielmente o que o amigo da família aponta – afinal, Tony não é nada mais que um menino se tornando homem. Um adolescente saindo da fase adolescente e das descobertas normais que temos nesse período para novas descobertas, novas perspectivas.

Nota: 8.0/10.0

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Um comentário em “O Filme da Minha Vida (2017): quando um filme conversa contigo

  1. Sem querer ser chato. O filme se passa provavelmente entre 1950 e 1960 provavelmente mais perto de 1960. Temos uma citação a televisão pelo personagem Paco, tecnologia que so chegou no Brasil em 1950 e provavelmente mais alguns bons anos até o interior do RS.
    Tirando esse preciosismo seu texto ficou muito bom.

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