Ensaios · Gabriel Bonz · Séries

O homo supremus de One Punch Man e sua consequência entediante

Algumas coisas são importantes para conduzí-los pelo meu texto de hoje: primeiro, eu não sou nada fã de animes e/ou mangás. Não tenho nada contra, mas simplesmente não me apetece tanto quanto as HQs americanas ou até as europeias. Segundo, eu apenas assisti o anime de One Punch Man, não acompanho o mangá – portanto, só falarei sobre o anime disponível na Netflix.

Por fim, mas o que é principal: tenho um enorme interesse nas definições filosóficas que os homens dão a si mesmo. Desde as mais famosas, como o homo ludens de Huizinga ou o homo sacer do Agamben, até algumas que eu mesmo “criei” pra facilitar o entendimento de certos pensamentos – o homo materialis de Marx ou o homo otarius de Zizek. E, as vezes, eu acabo aplicando isso às séries e filmes que assisto – principalmente quando essas séries/filmes têm como plot a criação de um (arque)tipo.

E One Punch Man faz isso indiretamente.

A história do anime é simples: estamos num mundo onde há 27 cidades com nomes genéricos (“cidade A”, “cidade Z” e etc), e essas cidades constantemente sofrem de ataques de monstros, ladrões e grandes destruições cataclismáticas. Perante esse contexto, criou-se uma organização de herois para combater essas ameaças, que são classificadas em níveis – que vão do “Tigre” ao “Deus”.

Dentro desse mundo, temos o heroi principal: Saitama, um humano comum que se tornou o mais forte dos herois. Sua personalidade é típica dos personagens principais de animes/mangás, como Ash de Pokémon ou Goku de Dragon Ball Z: completamente distraído, sem muita preocupação com a força que tem e de como lidar com ela, desligado dos problemas mundanos – como se a sua força e poder o fizessem completamente fora da sociedade humana. O grande objetivo dele é se tornar um heroi reconhecido, famoso e  que consiga fugir da frustração e apaticidade que lhe atingiu após Quem acompanha Saitama é Genos, um ciborgue extremamente poderoso que quer tê-lo como mestre para que ele possa realizar sua missão pessoal de vingança contra um androide que é mais extremamente poderoso.

Dentro disso, se estabelece um cotidiano em que às vezes aparece um monstro/ameaça, Saitama e Genos vão resolvê-lo, ignorando a burocracia da Central dos Herois. Em seguida, o ciborgue mostra para seu mestre como funciona a inscrição para se tornar um heroi dentro da burocracia; nos testes, Genos se torna um heroi de rank S (o mais alto) devido a suas potencialidades físicas mentais, enquanto Saitama acaba ficando com o rank C – ele quebrou todos os recordes no sentido físico, mas foi muito mal na prova mental. A grande questão que se levanta é: quais seriam todas essas potencialidades físicas frente às mentais. Ele foi colocado num rank inferior por não ser confiável? Preguiçoso? Isso não nos é revelado.

Isso tudo acontece nos primeiros episódios dessa primeira temporada; em seguida, se estabelece uma rotina em que Genos é contatado apenas quando há a necessidade de haver um heroi de rank S, enquanto Saitama tem que se provar tendo pelo menos um caso por semana. Se ele não o fizer, vai perder o rankeamento e a capacidade de ser um heroi reconhecido – que é seu grande objetivo de vida. Nisso, o desenho entra numa outra parte em que há um tipo de rotina onde o nosso herói principal resolve as coisas que não são resolvidas por heróis de rank A e S, mas não recebe reconhecimento por isso por não entender das burocracias (me identifico muito aqui).

Por fim, os membros da Central dos Herois acabam reconhecendo os feitos de Saitama – principalmente quando ele resolve um caso nível ‘Deus’ – e, ao final da temporada, ele é promovido ao rank B. O que parece é que ele vai galgar esse espaço com muita dificuldade e vai precisar ter muita paciência – o que não nos parece ser algo que Saitama esbanja (outra identificação pessoal com o personagem).

Minha reação quase sempre.

Além disso, o que é mais fino na série é a bonita utilização do humor non-sense. Fazia tempo que algo novo não trazia renovação para essa área do humor, que é tão gostosa, incrível e ácida. Rick & Morty vem investindo nisso, mas não da maneira leve e simples que faz One Punch Man, e sim de uma maneira bastante ácida – muito próxima de séries que eu adoro e que são referência no gênero, como South Park. One Punch Man me lembra um pouco da série do Guia do Mochileiro das Galáxias e, mais distante, um pouco dos esquetes mais underground do Monty Python. O absurdo está presente com uma imensa leveza; pode ser o caminho de início de qualquer um dentro desse universo do non sense. (Mas é bom lembrar as origens japonesas do desenho, o que faz com que existam clichês e outras noções completamente distintas, que podem ficar meio perdidos aos pouco iniciados no mundo dos animes, como eu mesmo. Mas não é algo que chegue a atrapalhar na apreciação da série).

Apresentado o plot e o universo da série, quero começar minha reflexão apontando dois pontos em que a série me impressiona, onde o anime trabalha a questão da humanidade, da inumanidade e dos superpoderes de uma forma filosófica e reflexiva bastante interessante. Um é sobre o tédio que Saitama sente após se realizar como ser humano físico e o outro é sobre como ele se realizou como ser humano físico. Começarei pelo segundo ponto, que nos levará ao primeiro.

O treinamento que Saitama nos apresenta é muito, muito, muito básico: ele apenas treinava todos os dias para atingir um ótimo patamar físico. Se alimentava corretamente, seguia os preceitos das artes marciais. Treinava seu corpo e mente (e isso é importante guardar: ele também treinava sua mente, mas mentalmente não é nada acima de um ser humano comum, talvez um pouco mais preguiçoso que o normal). Não realizou nada além disso: não fez pacos, não se utilizou de magia, apenas treinou seu corpo à exaustão sem desistir e sem nenhum tipo de coisa sobre ou pós humana. Saitama realizou em si o máximo do físico humano, tornando-se o maior guerreiro de todos os tempos apenas realizando-se como homem.

Genos, por outro lado, é um pós-humano completamente modificado e melhorado através da tecnologia (é bom notar que a tecnologia é algo que é humana e ao mesmo tempo parece não ser: é a realização máxima do intelecto que, no caso do ciborgue, se impõe ao físico e o realiza plenamente). Alguns filósofos quando tratam da tecnologia atual e de como ela pode influenciar na nossa sociedade e, principalmente, na nossa humanidade – com referência principal a Maturana e Varela em várias obras, discutidas por Slavoj Zizek em uma obra bastante interessante chamada Sobre a crença – e Genos, como muitos outros personagens ciborgues – o próprio Ciborgue da DC, que estará no próximo filme da Liga da Justiça – têm uma reflexão embutida em si mesmos sobre sua condição humana. Genos tem por objetivo de vida sua vingança, ele aprimorou sua condição para isso, meio que abandonando sua humanidade para poder vingar seus laços (um plot bastante clichê e repetido, mas poderoso nessa trama que tem várias discussões sobre os conceitos de humanidade e de laços familiares).

E Saitama, reiterando, é a realização máxima de um ser humano que, quando enfrentado por um monstro, decidiu se tornar o mais poderoso e reconhecido dos heróis. As duas cenas em que ele enfrenta o monstro lagosta, antes de treinar e se tornar o One Punch Man são sensacionais por demonstrar a evolução do Homem do estado de torpor cotidiano que o sistema nos impõe para o estado causal-revolucionário leninista – nós já trabalhamos com esse conceito no texto sobre La La Land, veja aqui -, onde uma Causa maior move toda a vida e os objetivos de determinado personagem. No primeiro encontro de Saitama com o monstro, ele convence o mesmo a não assassiná-lo por ter a vida vazia, tediosa, maldita e acabada; no segundo encontro, Saitama protege uma criança (o símbolo maior para o futuro e uma Causa que fuja do tédio e do vazio que a vida e Saitama entrou) do mesmo monstro. Após derrota-lo – na sorte e com todo o non-sense que a série trabalha -, nosso personagem principal decide que vai se tornar o maior e mais poderosos dos super heróis. Essa se torna sua Causa.

Este é Genos, o companheiro ciborgue.

Porém, ao atingir a Causa, o que acontece depois? Em La La Land, a Causa se transforma e se adapta, sendo cíclica e auto-realizável – e, após realiza-la, se tem tempo para si. Aqui, em One Punch Man, Saitama tem a realização niilista do tédio – muito bem expressada por Schopenhauer:

“Querer e esforçar-se são [a] única essência [do homem e do animal], comparável a uma sede insaciável. A base de todo querer, entretanto, é necessidade, carência, logo, sofrimento, ao qual consequentemente o homem está destinado originariamente pelo seu ser. Quando lhe falta o objeto do querer, retirado pela rápida e fácil satisfação, assaltam-lhe vazio e tédio aterradores, isto é, seu ser e sua existência mesma se lhe tornam um fato insuportável. Sua vida, portanto, oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio, os quais em realidade são seus componentes básicos.” Schopenhauer, O mundo como vontade e como representação. São Paulo: Editora Unesp, 2005, § 57.

Saitama parece começar a entender que a existência é tédio – sem a parte pessimista e romântica da dor trabalhada por Schopenhauer – e busca sempre fugir do mesmo. Mas, sempre que ele inicia uma luta, ele parece não acreditar que aquela luta irá preencher o Vazio que o mesmo sente.

Nosso protagonista realizou a potência do Homem físico: ele consegue qualquer coisa a partir do treinamento constante, da busca por uma Causa. Ele derrotará qualquer um – a série trabalha muito bem essa quebra de tensão que é o fato do personagem central ser onipotente, criando a tensão a partir do humor (todo o subplot do monstro marinho e a enrolação de Saitama para chegar ao local) – e sua Causa se torna então achar alguma luta que consiga fazê-lo fugir do torpor do tédio.

Será que ele vai conseguir? É isso que a série precisa trabalhar para continuar sendo maravilhosa do jeito que é.

Nota final: 9,5/10,0.

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