Escritores · Gabriel Bonz · Resenha Pop · Séries

Stranger Things: um estudo de caso histórico

Essa é a minha primeira Resenha pro Resenha Pop. E sobre uma série que eu paguei minha língua: falei mal no Prêmio Paideia de Stranger Things, pois eu realmente não sou nada fã das coisas produzidas nos anos 80 pelos Estados Unidos. O fim da Guerra Fria e toda o fim da paranoia militar americana, a solução de problemas através das conspirações e tudo o mais. Porém, a série é perfeita em retratar todo esse clima.

Eu ousaria dizer mais: pode servir como um baita estudo de caso histórico e defenderei isso durante a Resenha, também mostrando os pontos positivos da saga.

Eu só queria deixar claro como esse logo é maravilhoso. A tipografia, as cores, o efeito… se Stranger Things fosse nos anos 80 seria um clássico instantâneo.

A série se passa no início da década de 1980 (mais precisamente, 1983) numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos com todos os clichês e ambientes possíveis: uma única escola pública que tem os grupos dos nerds esquisitões, dos perfeitinhos, os bullies – são dois níveis de bullies, aliás – e etc. Dentro desses grupos, acompanhamos a história de Mike Wheeler (Finn Wolfhard) e seus amigos Dustin Henderson (Gaten Matarazzo), Will Byers (Noah Schnapp) e Lucas Sinclair (Caleb McLauhghin) nessa pequena cidade chamada Hawkins. A cidade fica ao lado de uma empresa estatal que supostamente lida com energia – mas, na realidade, faz parte de um projeto muito maior dentro dos grandes projetos científicos (e pseudocientíficos) ocorridos durante a Guerra Fria. Eleven (Millie Bob Brown) é um dos resultados desse projeto e acaba fugindo, com poderes. Esse projeto lembra muito da história do MK Ultra e outras teorias da conspiração oitentistas.

Algumas análise mais técnicas pra iniciar: o casting está maravilhoso. Os trio de personagens principais funciona como uma luva – esse menino Finn Wolfhard daria um ótimo Sandman, galera, fiquem ligados – assim como os adultos centrais na obra. Winona Ryder está descontrolada como uma mãe que perdeu seu filho deve estar e David Harbounos entrega um policial completamente pacato, mas que tem camadas e mais camadas de história que são explorados no timing correto. Os adultos não são incompetentes, burros ou simplesmente desacreditam das crianças – mesmo que faça todo sentido o que elas falam. Os atores funcionam muito bem uns com os outros, e a trama se desenrola fácil com essa interação.

O destaque fica para Millie Bob Brown – já cotada pela Marvel, logicamente, a menina é a cara da Garota Esquilo! – que nos entrega um personagem bem difícil, com uma carga emocional bastante densa, com flashbacks constantes e uma coisa que eu acho difícil de ficar natural, que é a reprodução de gatilhos como formas de mostrar flashbacks. Normalmente fica forçado, mas a direção da série conseguiu fazer com que ficasse fluído e tranquilo; mas não em Stranger Things.

Aliás, a direção é um todo a parte sensacional. As referências e easter eggs bastante claros – porém não exagerados – são sensacionais. Desde a roupa que a Eleven veste até o ambiente meio Alien, o 8º Passageiro que tem no Upside Down, tudo nos remete aos anos 80 de uma maneira fiel e saudosista. A sociedade da pequena cidade de Hawkins também parece bastante fiel ao período – e por isso eu poderia chamar essa série de um baita retrato histórico.

A única coisa que peca, na minha opinião, são os vilões – e pra mim fica claro que não é o monstro do Upside Down o vilão, e sim o governo. Parece vilania pura, a criação de um outro monstro – institucional e racional – que seja completamente desviado dos interesses da comunidade: será que essa noção de “bem maior” realmente faria algo vilanesco nesse sentido? Eu duvido muito. Talvez seja meu ceticismo de historiador, mas acredito muito mais que o MK Ultra aconteceu de uma maneira mais isolada e controlada – com uma comunidade inteira que sabia do que estava acontecendo. Eu acreditaria num grupo de vilões mais complexo, ou então na transformação do monstro do Upside Down num vilão mais animalesco e selvagem. No final, eles combatiam muito mais a empresa de energia do que o Upside Down.

Porém, paguei minha língua: a série é maravilhosa, tem um casting incrível, os atores funcionam bem tanto individual quanto coletivamente. A direção é estilosa e fluída. A narrativa é gostosa, não entrava e nem tem ex machinas irritantes. O gostinho de “quero mais” pra próxima temporada tá aí.

Nota final: 9,0/10,0.

 

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