Ensaios · Geral

O não-reflexo do vampiro: ser vampiro é utopia ou maldição?

Esta é a segunda parte de um “texto-maior” que contém três partes: uma introdução (onde será postado o texto integralmente também, que você pode acessar clicando aqui), um primeiro ensaio filosófico metafísico e um segundo ensaio, estudando alguns casos que podem nos levar a um “percurso do vampiro” na filosofia pop pós-anos 80.

Neste ensaio, trarei algumas reflexões sobre a lenda do vampiro enquanto tal: um ensaio de tópicos mitológicos e suas possibilidades de análise filosóficas. Trarei exemplos de vampiros da cultura pop, e vampiros da cultura tradicional e do folclore, conforme forem se encaixando nos exemplos. Já refuto a primeiro objeção: este não é um estudo de caso, e sim um ensaio sobre o Vampiro como algo transcendental ao homem. Estou sendo junguiano e admito.

Uma das características mais básicas da lenda do vampiro é o fato do mesmo não ter reflexo. O vampiro é um dos seres mais complexos de toda a literatura fantástica: como todo monstro – a caracterização de um monstro é um tema interessantíssimo e que eu gostaria de trabalhar com maior profundidade em outros textos, principalmente agora que a Universal está pretendendo fazer um novo universo compartilhado com suas criaturas fantásticas – ele deve se descaracterizar de sua humanidade para poder se caracterizar da sua monstruosidade. Fazer-se monstro é desfazer-se da humanidade – o zumbi abandona sua vida, o Frankestein busca a própria vida sendo que é impossível retomá-la, e tudo o mais. Mas, e o vampiro?

O vampiro muitas vezes pode ser visto como uma espécie de sobrehumano: a realização maior e mais completa de qualquer humanidade, assim como os super herois – o caso emblemático de Blade, que será analisado no próximo texto dessa problemática, é seminal – ele realiza tudo o que um Homem faz, mas em maior quantidade. Um dos perigos narrativos de se humanizar a figura do vampiro é tirar dele sua monstruosidade e fazer dele um simples sobrehumano, como os herois dos quadrinhos: esse é o grande problema da saga Crepúsculo, por exemplo, que tira a monstruosidade dos vampiros, fazendo deles simples super-herois.

Muitas vezes essas caracterizações muito mais humanas colocam os vampiros como seres completamente idealizados, ignorando a sua própria monstruosidade em virtude da idealização e da criação de um ser que não é monstruoso – ou que a sua monstruosidade está escondida e é evitada a qualquer custo. Por outro lado, outras caracterizações colocam o vampiro como apenas mais um monstro, sem nenhum tipo de humanidade, sem nenhum tipo de aproximação com o que ele era em sua antiga forma, sendo o exemplo emblemático dessa caracterização o clássico Nosferatu.

Porém, como apontado anteriormente, não quero fazer aqui uma série de estudos de caso – isso ficará para o próximo texto desse pequeno tríptico. O que buscarei aqui é estabelecer alguns pensamentos sobre Humanidade, Monstruosidade e o mito clássico do vampiro. Para isso, quero apresentá-lo:

O vampiro é um ser das sombras, que não pode sobreviver durante o dia, que se alimenta única e exclusivamente de sangue. Ele pode ter poderes sobrenaturais, principalmente telepáticos; utiliza os mesmo para facilitar a caçada à suas vítimas. Pode se transformar em animais das sombras, como morcegos, ratos e lobos. Ele é imortal: pode ser morto apenas com uma estaca de madeira fixada ao seu coração. E, por fim, não tem reflexo no espelho.

Essas duas características destacadas serão o foco desse texto. Começando pela segunda:

O espelho é um elemento que está no imaginário humano desde de que começou a ser utilizado, ele é utilizado em muitas figuras de linguagem, envolto em um mistério. Existem várias referências e aplicações ao espelho que podem ser feitas cultural e literariamente: desde um outro mundo a ser explorado – mundo que é referenciado como o contrário ou então como um lugar que tenta te prender – até a referência principal que usaremos aqui, de que o pertencimento de reflexo é um indicativo de humanidade. Os seres humanos são intrinsecamente diferentes, seja fenotipicamente, seja psicologicamente; isso faz com que algumas poucas características humanas sejam ressaltadas, reverberadas e tomadas como universais. O reflexo no espelho toma isso como fundamental: todos os seres humanos, invariavelmente, têm um reflexo. E, além: tudo que é material tem um reflexo. A materialidade se dá no reflexo do espelho.

Esse reflexo tem um caráter psicológico e outro filosófico. O seu caráter psicológico é abordado principalmente por Lacan: o reflexo no espelho nos lembra a nossa própria humanidade, recomenda que lembremos que somos alguém assim como todos os Outros que nos rodeiam. Ao se olhar no espelho e reconhecer um ser humano ali, rodeado de outros pares similares mas que são distintos da sua individualidade, o Homem se reconhece como igual aos outros. O reflexo mostra que somos apenas o que somos: que a alteridade não é um conceito que nos é natural. Construímos os Outros para nos construir e definir. As sociedades em contato se definem umas com as outras a partir da alteridade: a alteridade é o conceito chave para entender a humanidade. E o espelho nos lembra que a alteridade nada mais é que uma farsa. Filosoficamente – pensando principalmente na obra de Clement Rosset, que se preocupa com a questão do Real – o espelho é um retrato da nossa própria sanidade defronte à realidade. Podemos fugir, criar quantos Duplos (possibilidades e/ou desculpas distintas, formas diferentes de interpretar o mundo) forem, que não há escapatória: a realidade vai nos atingir, como a profecia na lenda de Édipo. Negar a realidade é esconder-se atrás de lendas, mitos e sombras, é inventar desculpas metafísicas e nega o amor fati nietzschiano; ao olhar para o espelho, o Homem deve lembrar sempre que é o que é: material, humano (demasiado humano) e finito.

Quando o homem concebe o vampiro como um ser monstruoso e insere como um dos detalhes da sua monstruosidade justamente o fato deste ser não ter um reflexo, insere nesse ser a sua real monstruosidade: ele não é mais parte da comunidade dos seres. Aquele monstro é tão monstruoso – por mais charmoso, belo ou forte que seja – que sua participação na materialidade lhe foi negada. E isso ocorreu no momento da sua maldição: a maldição vampírica isola aquele ser do resto de toda a materialidade. O torna um acontecimento metafísico, uma rusga de transcendência dentro da materialidade – e, numa concepção materialista de mundo, simplesmente atenta para o fato principal: aquele ser não existenem pode existir.

E isso nos traz a segunda característica apontada anteriormente: quando a maldição passa a ser a não existência, fica clara imediatamente que este ser deve ser imortal. Ao demonstrar, mitológica e simbolicamente, que o vampiro não pode existir (ao não ter reflexo), o Homem que cria esse mito demonstra também que a existência tem relação direta com a mortalidade: a vida depende da morte para se realizar fatidicamente. Nietzsche sempre nos apontou que a sociedade ocidental se fez, a partir do paradigma socrático, negando o trágico: negando a vida. O vampiro está nos resquícios trágicos da sociedade; retomado em forma e conteúdo pelos românticos do século XIX, essa lenda nos lembra algo que nunca podemos esquecer: a realidade e a mortalidade se ligam em uma simbiose que não pode ser desfeita.

Ser vampiro não é ser um pós-humano. Não é ser um sobre humano. Não é ser um a-humano. Não é ter poderes, se relacionar com a sociedade de uma forma pacífica; não é algo desejável. Ser vampiro é uma maldição: algo que atinge um ser humano e o retira completamente da humanidade, retirando-lhe toda e qualquer possibilidade de fazer parte da categoria. Assim, ao buscar o sexo e o charme, a bebedeira e o bacanal, o vampiro busca nos sentidos – a categoria histórica das ‘paixões’, combatida por Descartes e Leibniz, alardeada por Rousseau e os românticos – o que é mais humano. Ao buscar a sabedoria, o conhecimento que só a “imortalidade” pode lhe oferecer, busca na Razão – a ratio do zoon politikon aristotélico, retomado incessantemente em toda e qualquer filosofia – o que é mais humano. Mas sempre em busca de retomar uma característica que lhe foi retirada: seu reflexo no espelho.

A utopia vampírica é a inversão da sua maldição: é voltar a ser humano. É retomar seu reflexo.

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