Filmes · Juliana Zanezi · Resenha Pop

Homem-Aranha: Homecoming: a nova face do Aranha inserido no UCM, por Juliana Zanezi

O Cabeça de Teia nunca foi tão legal nas telas de cinema. Realmente, dessa vez não tem como negar que Spidey ganhou uma cara nova completamente diferente de seus anteriores. Homecoming em si é divertidíssimo, interessante e lotado de referências à cultura pop: este é o Peter mais jovem já escalado (o que foi alvo de grandes desconfianças dos mais críticos) – e não decepcionou. Com apenas 15 anos, ele é jovem, tímido e com problemas mundanos adolescentes. E isso foi genial: deu pra sentir um Peter palpável, que sofre bullying, que tem um “crush”. Ok, mas antes a gente já tinha tudo isso, né? É… Mais ou menos. O que sempre faltou a Tobey Maguire foi carisma, o bom humor, o frescor jovem e a presença em tela. Já para Andrew Garfield, faltava sal, faltava açúcar… Faltava tudo! Era um menino sem graça.

 O principal do filme é que este não é um filme de origem. A primeira trilogia de Sam Reimi e Tobey Maguire foi um fenômeno importantíssimo para a indústria cultural e filmes de super-herois. Seu peso no imaginário do grande publico não deve nunca ser esquecido ou desmerecido: não há pessoa que nunca tenha ouvido falar de um garoto que foi picado por uma aranha radioativa e por isso ganha poderes especiais. Por muitos anos, a cara insossa de Maguire foi a de Spidey. Até o terrível terceiro filme da trilogia, que acabou por desbotar boa parte de seu legado.

 Depois de dez anos de estreia do primeiro filme de Reimi, a Sony teve a brilhante ideia de adaptar mais uma vez o cabeça de teia para as telas, um reboot do personagem, dessa vez, encarnado pelo fofo, mas sem sal, Andrew Garfield. Outra história de origem, sim. Dessa vez, foram dois filmes tristes de assistir. Poucos pontos positivos. Marc Webb (500 dias com ela) devia ter continuado com seus filmezinhos dor-de-cotovelo, mas acabou criando um Peter Parker atormentado pela memoria dos pais, solitário e bobo, um nerd sem graça, além de inventar uma conspiração desnecessária em torno dos Parker. Nem preciso dizer que foi um desastre cinematográfico, mercadológico e, novamente, prejudicial ao personagem.

(Nota do Editor [aka Gabriel]: eu tenho certeza absoluta que só chamara o Marc Webb pra dirigir o Homem Aranha por causa do nome dele e das piadas óbvias)

 Com isso, quando anunciaram novo filme do Aranha eu lembro bem te der pensado: “Puta merda, outro?! Deixa quieto, já tivemos cinco filmes, dois bons e o três terríveis. QUE FIXAÇÃO!”. Engoli minhas palavras com vodka. Por não ser um filme de origem, não perdemos tempo com circunstâncias “pré-poderes”, num sentido em que Homecoming aproveita muito bem do imaginário que todo mundo tem do Homem Aranha: ele foi picado, obteve poderes e tem que aprender a lidar com ele na vida adolescente. Não foi preciso mostrar o que aconteceu. Os fãs sabem muito bem, e – depois de cinco filmes – o grande publico também! Este foi um bom artifício de narração pra mim, economizando falatórios repetitivos ou mesmo flashbacks.

 O humor veio em uma fórmula “Guardiões da Galáxia” (2014), que muitos diretores de blockbusters vêm tentando, mas poucos realmente conseguem que não fique forçado ou fora do lugar. Jon Watts conseguiu: a comédia é parte essencial de todo o conceito do personagem de Peter e do Aranha, algo que ficou extremamente ausente nos filmes anteriores. Ele é um garoto que enfia piadas, sarcasmo e tiradas não ofensivas em tudo. Há cenas que Peter tem que improvisar, discutir com seu traje, passa vergonha com Happy Hogan e Tony. Não consigo me recordar agora de alguma punchline “à toa” ou fora do lugar, inclusive algumas dela foram bem ao estilo da famosa série animada dos anos sessenta.

 É muito bom também ver como Homecoming se insere no Universo Cinematográfico Marvel de forma majestosa: tudo o que move o enredo depende de filmes anteriores pra fazer sentido, dando uma boa oportunidade de a Marvel mostrar coesão. Seja Tony Stark com os olhos roxos ou o professor de geografia falando do Tratado de Sokovia, ou ainda vídeos motivacionais ou técnicos do Capitão América sendo usados na escola. O que mais chama atenção nesse sentido é a própria “origem” do vilão Abutre (Michael Keaton), prejudicado pelas Indústrias Stark no incidente de Nova York causado por Loki no primeiro Vingadores (2013), valorizando as consequências dos eventos causados pelas batalhas.

 O trabalho de figurino foi destaque pra mim: os trajes não parecem falsos ou borrachentos, nem mesmo plásticos como aconteceu antes (com a maioria dos herois). A roupa principal de Spidey tem diversas texturas visíveis e, deu pra ver algo de palpável ao mesmo tempo fantástico. Mesmo que tenha me desagradado o fato de todos os sentidos de aranha tenham sido substituídos pela fantástica tecnologia dos trajes que Stark desenvolveu para Peter. O traje apelidado de “Karen” funciona em diversos níveis, tanto combate quanto um radar, sonar e etc, super audição e visão. Uma pena perceber que Peter não tem mais estas habilidades sem ele.

 O melhor amigo de Peter, Ned Leeds (Jacob Batalon) foi uma atração à parte e uma das boas surpresas do filme. Nerd até os ossos, o bom companheiro de Peter ganhou um destaque muito legal, engraçado e mundano do melhor jeito possível. Ele é um fofo maluquinho, cheio de energia e bom humor. Um bom amigo que Peter não poderia ficar sem. Importante mencionar que também colaborou pra alguma diversidade étnica no filme. Ele é um personagem conhecido nos quadrinhos, mas não pude deixar de notar que no filme ele pode ter vindo substituir o papel de Harry Osborn como melhor amigo. Não sei se tem a ver e não acredito que ele se torne o principal nemesis do Spidey depois.

Muito mais próximo do universo Ultimate do que da Terra 616, o que achamos particularmente interessante.

 Os outros colegas também podem ser dignos de comentários. Flash Thompson foi a figura que mais me assustou logo de cara: agora ele não é mais o otário jogador de futebol, brutamontes bully e fisicamente forte e violento. Ele passa a ser o bully moleque irritante que faz da vida social de Peter um inferno. Interpretado por Tony Revolori, conhecido pelo protagonismo em O Grande Hotel Budapeste (Wes Anderson, 2013), ele é parte da equipe de decatlo acadêmico de Peter, um competidor ressentido. Por ser rico e popular, ele cria as mais diversas situações para deixar Peter na saia justa, constrangido. Não há mais apelo à violência física e isso é bem condizente com a realidade atual de violência psicologia e social que rola nos colégios mundo a fora. Por ser um garoto muito bom, Peter não se vê compelido à dar umas boas porradas em Flash, mesmo podendo. Ele acaba sem querer se vingando do oponente roubando seu carro no final do filme e destruindo-o todo!

 Zendaya teve uma presença bacana na tela, bonita e genial, sem “chamar muita atenção” por seus atributos físicos. A polêmica em torno dela mostrou-se cada vez mais ridícula, porque nem Mary Jane ela é. Acredito que isso foi uma desviada covarde por parte da produção: o fato de o público (masculino, hétero, branco) não ter aceitado bem sua escalação como Mary Jane, pode sim ter feito os produtores mudarem de ideia e a nomearem de Michelle Jones (MJ, sacou?), mesmo que ela carregue algumas características da Mary Jane original. A crush de Peter, Liz Toomes aparentemente é uma adaptação de Liz Allen para as telas: graças aos deuses, ela não veio em forma da mocinha loira tapada que conhecemos nos quadrinhos (papel que a Mary Jane de Sam Reimi meio que fez, infelizmente). Interpretada pela belíssima Laura Harrier, ela é brilhante, atlética e sensível. Um bom upgrade nos interesses amorosos de Peter.

 Não posso deixar de mencionar minha surpresa quanto a Michael Keaton. Eu estava totalmente desacreditada tanto de sua presença em cena quanto de seu papel. No fim, sua atuação foi a de sempre: ele sendo ele mesmo, com aquela arrogância no olhar, sorriso presunçoso, pinta de malvadinho/revoltado. Coisa de sempre. O grande destaque foi pegarem um vilão bem bosta dos quadrinhos e fazer algo minimamente aceitável, objetivo e quase carismático. Fala sério, o Abutre só não é pior que o Shocker (que inclusive também “aparece”), é um vilão muito ruim e bobo. Aqui, ele ganha motivações reais e mundanas: ódio ao Stark. Curiosamente, ele se torna uma versão menos poderosa (meio tirada do lixo, literalmente) do Homem de Ferro… Uma ironia na simetria da composição dos personagens: Peter se prova para Tony ao derrotar uma versão “mais sucateada” de seu próprio mentor e que inclusive o detesta. Coincidência? Talvez não.

 Não poderia também deixar passar comentários sobre Robert Downey Jr. Ele nunca me decepciona como Tony. Que homão da porra, nasceu pra ser Stark. Felizmente seu papel na história foi menos frequente do que os trailer e pôsteres deram a entender: ele realmente só aparece em momentos chave da trama de forma pertinente e charmosa, inclusive tendo uma grande surpresa para os fãs de Pepper Potts, como eu. Quase não aguentei de emoção ao ver Gwyneth Paltrow ali, linda e maravilhosa. Poxa vida, eles estavam separados desde Capitão América: Guerra Civil (2016) e foi lindo vê-los juntos de novo.

 Tony funciona neste UCM como um mentor de Peter, alguém que ele admira e quer cair nas graças. Boa parte das decisões tomadas por Spidey parte da vontade de impressioná-lo e ganhar sua confiança. Fica aqui algo que pra mim foi um dos maiores problemas do filme: CADÊ O TIO BEN NESSA HISTÓRIA? Em nenhum momento a grande figura paterna de Peter aparece ou mesmo é mencionada. Nem mesmo em um simples diálogo, nem mesmo seu nome é trazido. Isso foi bem trágico. Ele sempre foi grande bússola moral de Peter sempre, cuja morte ele se sentia culpado. Tudo bem que estão aproveitando o imaginário anterior e evitando repetições, mas não mencionar o tio Ben foi, no mínimo, uma mancada, desleixo ou descaso. Até pior: foi apagar boa parte da formação do firme caráter de Peter como alguém justo e bom.

Já tia May teve alguma atenção na tela, em alguns sentidos bem desnecessários ao meus olhos. Numa nova cara: jovem, bonita e desejada, mesmo que inconsciente disso. Mesmo Tony a acha sexy e faz comentários, desde Guerra Civil. Isso eu achei um ponto meio “esquisito” demais: foram várias vezes que alguém comenta qualquer coisa sobre sua aparência, “bonita e sexy” durante Homecoming. Tudo bem que já estávamos acostumados com a velhinha tia May (principalmente nas HQ), mas cara, minhas tias são jovens e bonitas. Qual a grande piada? Mesmo assim, ela é engraçada e carismática, aparecendo pouco. Realmente, botaram grande atenção na bela aparência de May e esqueceram completamente da figura do tio Ben! De qualquer forma, adoro Marisa Tomei e fico feliz de ter ela no Universo Marvel. Gosto de especular quem poderia ter sido seu falecido marido, mas não consigo pensar em alguém tão fofo, bonito e engraçado que combine com ela. Espero que se tiver um segundo filme solo, eles deem atenção especial ao tio Ben e expliquem porque não falaram dele antes.

 Além o sempre esperado e maravilhoso cameo de Stan Lee, também fui surpreendida por muitas participações mais que especiais. O ator Donald Glover, que nas animações do Homem Aranha, já deu voz ao ilustre Miles Morales, interpretou no filme o tio do mesmo. Jennifer Connely empresta sua voz para o software do traje de Peter, “Karen”. Uma curiosidade é que a atriz é esposa de Paul Bettany que, antes de encarnar o Visão no UCM, era a voz do software J.A.R.V.I.S. Michael Mando, conhecido por seu papel de Nacho em Breaking Bad e Better Call Saul, interpreta ninguém menos que o Escorpião, um dos poucos vilões do Homem Aranha que realmente são assustadores, aparecendo inclusive na primeira cena pós-créditos, me dando esperanças de que ele voltará. Kirk Thatcher, produtor e escritor de Star Trek, faz uma homenagem a sua participação cameo no filme Star Trek IV, interpretando um punk no ônibus enquanto Peter faz aquela ronda maluca pelo Queens. Kenneth Choi, conhecido por Sons of Anarchy, já havia entrado para o UCM em Capitão América: o Primeiro Vingador (2011) como Jim Morita, membro do esquadrão de Rogers, aparece em Homecoming como um descendente de Morita, diretor da escola de Peter. Por fim, não podemos deixar de lado a doideira que foi a participação de Chris Evans como Capitão América em vídeos de segurança e educativos, e na segunda cena pós-créditos. Outra “participação” muito presente, são as referencias diretas aos filmes de John Hughes, como Clube dos Cinco e Curtindo a Vida Adoidado, seja em montagem e edição de cenas, seja inspiração na direção dos atores na cena.

   Tom Holland já tinha se provado um excelente Peter Parker em Guerra Civil e em seu filme solo não decepcionou em nenhum momento. O cara tem presença, flexibilidade, carisma, um rostinho bonito e uma expressividade sensível bem delicada. A mudança no olhar e na voz de acordo com a situação foi bem impressionante. Duas cenas me chamaram muita atenção: Quando Peter vai à casa de Liz e descobre que ela é filha do Abutre e, daí, quando Toomes descobre que ele é o Aranha dentro do carro. Foi o clima mais tenso do filme e acaba sendo surpreendente. Deu pra sentir a mudança dos olhares, tanto de Holland quanto de Keaton. Outra cena notável foi Peter preso nos escombros. Ele se lamenta, ele chora. Foi muito real e tocante ver essa parte bem humana e desesperada do garoto: poxa, ele é um garoto, claro que ficaria desesperado (eu ficaria muito mais! HAHAHA). Ainda assim, essa cena é um tanto problemática, pois ele acaba sendo motivado pela memoria de algo que Tony Stark falou: o certo seria ele se lembrar do tio Ben! É, eu não vou deixar essa passar, Marvel! Cadê o tio Ben? Adoro Tony, mas ele não devia ser parte desse momento de superação da dificuldade. Eles podiam ter usado essa cena pra trazer a memoria do tio, mesmo que misturada com a de Tony.

Uma conversa muito profissional entre a escritora e o editor do site.

 Holland é mesmo um bom ator e fico feliz que ele seja a nova cara do Spidey. Não temos mais um Peter Parker insosso e sem graça. Não, agora temos um curioso, engraçado, estabanado, perdido e expressivo Homem Aranha.  Esse filme oficialmente me fez ter um crush fortíssimo. Prefiro pensar que é com Tom Holland, com essa carinha de cachorrinho bobo com 21 aninhos, e não com fofíssimo Peter, que na história tem só 15 (socorro)!

 As figuras femininas nesse filme não foram lá muito fortes no sentido mais estrito. Todas foram bem coadjuvantes. Há as cheerleaders cruéis, mas o time de decatlo é metade meninas. Entre as “principais”, a com menos carisma realmente é Liz. Michelle rouba a cena diversas vezes e nem preciso falar muito de tia May. Inclusive, essa adaptação é a primeira que May descobre que Peter é o Aranha (“WHAT THE FUCK?”, uma das melhores punchlines do filme, na minha opinião!). Mesmo assim, é um filme com bastante diversidade étnica: na escola não tem só gente branca como antigamente, uma escola média “real”. Assim, mesmo sem pontos realmente positivos para representatividade e etc, também não tem pontos realmente negativos. É bem equilibrado e fica na “zona segura”, uma estratégia da produção. Como comentei antes, só a piada constante sobre a aparência de tia May me irritou.

  Enfim, o novo Peter Parker não é apenas brilhante porque é talentoso, carismático e engraçado. Mas também porque toca o grande público com questões como tecnologia, cultura pop, redes sociais, vídeos amadores e bullying. Além disso, Peter está tão deslumbrado com a atenção de Tony Stark, Vingadores e das pessoas em geral como qualquer um de nós ficaria e, acima de tudo, está ansioso para fazer alguma diferença no mundo. Ao mesmo tempo, conversa com todas as gerações leitoras de quadrinho de alguma forma, dando aquele ar familiar, fresco e jovem que queremos sentir com o Cabeça de Teia em ação.

 Realmente, a tradução brasileira para “Homecoming”, mesmo que equivocada, fez algum sentido: “De Volta ao Lar” tem tudo a ver com as propostas que o filme trouxe para dar uma repaginada no conceito do Peter/Aranha, trazendo facetas da essência do personagem de uma forma melhor que seus antecessores, inserindo o Homem Aranha de forma definitiva no Universo Cinematográfico Marvel e consolidando o imaginário popular sobre ele. Porém, temos que concordar que todos tiveram erros e acertos e, pra mim, os maiores erros deste filme foram: a gritante ausência de tio Ben em todos os níveis da vida de Peter; e a grande “tecnologização” externa, pelas mãos bem intencionadas de Tony Stark, de fatores que seriam os poderes mais legais do Homem Aranha.

 Com um elenco de peso e bem diverso, verossimilhança com o dia-a-dia de um garoto do ensino médio, trilha sonora excelente e empolgante na mão do maravilhoso Michael Giacchino e direção bacana de Jon Watts, é um filme muito engraçado, divertido e leve de assistir, fluido e com bom ritmo. Os conflitos são condizentes com as capacidades de um jovem e novo herói nova-iorquino e as poucas falhas de roteiro incomodam, mas não o suficiente pra deixar os fãs insatisfeitos com o resultado final. Espero que a haja sequência de Homecoming e já estou ansiosa para ver seu desempenho em Vingadores: Guerra Infinita Parte 1 em 2018!,5/

Nota final: 8,5/10,0.

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