Filmes

Mulan: sobre entender o presente e encarar o futuro

O filme Mulan, de 1998, é um dos mais aclamados da produtora. É o 36º filme de animação da Disney, dirigido por Tony Bancroft Barry Cook. O enredo ocorre durante a dinastia Han (206 a. C. – 220 d. C.), onde a personagem principal (e uma princesa que se constroi como tal) finge ser um homem para ocupar o lugar de seu pai durante um recrutamento geral para combater uma invasão mongol.

Mas, para além, Mulan trata-se de um filme sobre destinos: um destino oracular, um destino social – e como a sua história, como característica do “Renascimento da Disney” dos anos 90, subverte a estrutura de narrativas clássicas, mas mantém seu desfecho.

Destino oracular e destino social.

Há um veredicto do destino. Quando se admite o destino, ele é Deus implacável, Força implacável: deve se realizar. Na Ilíada, Heitor e Aquiles se enfrentam, já com a profecia instaurada: Aquiles vence, Heitor morre. O teatro grego retrata essa cena com dramaticidade: afeiçoa-se por Heitor, afinal a morte está por apunhalá-lo. Zeus aparece para julgar, junto de sua balança. A mesma pende pela morte de Heitor: o destino se completa. É engraçado notar como a balança é uma figura muito presente quando se quer reforçar a força inapta do destino: Santo Agostinho se utiliza dela para confirmar a justiça divina, os revolucionários do século XVIII (principalmente nos EUA) se utilizam dela para confirmar a justiça da história, e Karl Marx admite-a como balança que pende aos proletários na Dialética da História.

O destino, porém, não é único: é narrativamente composto de vários tipos. Dois deles, em especial, nos interessam hoje: o destino oracular e o destino social.

Existe toda uma categoria de histórias clássicas onde há a imposição de um destino “oracular” – segundo Clement Rosset. O futuro se dá através de uma ‘profecia’ ou de um oráculo que se realiza após determinados elementos se realizarem. Mesmo que se tente negar, o destino invariavelmente acontece. O caso clássico é o do mito de Édipo (retirado da Wikipédia pois não sou obrigado):

“Segundo a lenda grega, Laio, o rei de Tebas havia sido alertado pelo Oráculo de Delfos que uma maldição iria se concretizar: seu próprio filho o mataria e que este filho se casaria com a própria mãe. Assim, ao nascer Édipo, Laio abandonou-o no monte Citerão pregando um prego em cada pé para tentar matá-lo. O menino foi recolhido mais tarde por um pastor e adotado depois pelo rei de Corinto e voltou a Delfos. Édipo consulta o Oráculo que lhe dá a mesma previsão dada a Laio, que mataria seu pai e desposaria sua mãe. Achando se tratar de seus pais adotivos, foge de Corinto.

No caminho, Édipo encontrou um homem e sem saber que era seu pai o matou, pois Laio o mandou sair de sua frente. Depois de derrotar o homem casa-se com a sua mulher, não sabendo que era também a sua mãe biológica.”

Ao recusar enfrentar o destino oracularfugir do mesmo, Édipo acaba invariavelmente por realizá-lo. Ao negar a realidade o rapaz simplesmente a confirma: essa é a grande angústia do destino oracular. É uma profecia metafísica: faz-se de tudo para negá-la, mas o que acaba acontecendo é justamento o contrário. Parece que toda a força no sentido contrário transformou-se magicamente numa força no sentido favorável à realização daquela profecia.

(Um pequeno parêntesis: há um outro filme da Disney do mesmo período, chamado Hércules, que trata a questão do destino também. Porém, eu apenas o assisti uma vez; pretendo reassistí-lo com o olhar mais atento a essa problemática e fazer uma análise do mesmo, também).

Além disso, há um outro destino nos caminhos humanos que pode ser representado por algumas lendas e fábulas, essas porém mais recentes. A Bela Adormecida A Branca de Neve são exemplos clássicos de “destinos sociais” (termo que eu tive a pretensão de cunhar), onde a estrutura social delimita um futuro rígido a ser cumprido. A análise do contexto em que essas fábulas acontecem – além do aspecto moral – é interessante por mostrar que a relação de forças vai além do indivíduo: mesmo com todo esforço do mundo, o destino natural que a sociedade impõe àquelas personagens se realiza. A princesa de A Bela Adormecida precisa ser acordada por um príncipe para realizar sua função social de se casar (e se manter pura até o mesmo); enquanto A Branca de Neve, mesmo rodeadas de pessoas as quais ela amava, precisou se afastar duplamente dos anões: num primeiro momento, sendo envenenada e, num segundo momento, casando. É sempre bom lembrar: o final feliz é sempre em casal.

O destino social é uma força potente da sociedade, que te empurra, no seu viver, a viver como se pretende. A Bela Adormecida precisa ser adormecida, mesmo que a tenha sido por uma maldição: não se trata aqui de uma escolha. O rei não escolheu a maldição à sua filha, nem a bruxa escolheu amaldiçoá-la. A rainha não escolheu envenenar Branca de Neve. Ninguém escolheu individualmente prender Rapunzel em seu castelo: há um zeitgeist próprio dessas realidades em que a maldição é a lei e, principalmente, garantidora do destino. Não o destino do Oráculo, mas o destino da Sociedade: o destino ideal.

Essas duas figuras, então, suscitam uma série de reações possíveis:

  • Ao destino oracular, o partícipe tem três escolhas, segundo Clement Rosset:
    1. Fatalismo perante o destino (atitude de Heitor na Ilíada);
    2.Combate que gera o destino (opção tomada por Laio e Édipo);
    3. Resignação e reconhecimento do destino (o amor fate de Nietzsche).
    É importante notar que, qualquer que seja a escolha, o destino oracular vai se realizar. Não há passado, muito menos presente: apenas futuro.
  • Ao destino social, o partícipe tem apenas duas escolhas:
    1. Se deixar enganar pelo destino (ingenuidade da Branca de Neve e da Bela Adormecida, impossibilidade de Rapunzel de escapar);
    2. Ou combatê-lo (que é o que Mulan faz).
    Há aqui apenas o presente: seja resignado, seja ativo.

Porém, Mulan encara um problema: em sua história, há dois destinos. O destino social, e o destino oracular. Como ela lida com isso?

Mulan vence o presente e aceita o futuro.

O destino social de Mulan é dado no primeiro musical do filme. Ela deve se casar. Constituir família. Construir a continuidade da espécie e, principalmente, do sangue nobre da sua própria família. E, além de tudo: ela deve saber que o pai vai morrer iminentemente. Ela não está nada feliz.

Mulan é um ponto fora da curva. Como outras animações dos anos 90, o filme traz uma protagonista forte, interessante, auto-centrada, que sabe o que quer e que não vai abaixar a cabeça para a sociedade. Durante a música do casamento, a menina para para resolver um jogo entre dois senhores da vila: aquele lugar no qual eles a colocam, não a pertence. Mulan tem sua força de combate à sociedade, assim como A Branca de Neve – que consegue escapar do seu destino social de morrer – e assim como Rapunzel – que combate o seu destino deixando seu cabelo crescer para poder ser ajudada. Porém, Mulan é mais forte que a sociedade – e mais inteligente que suas companheiras.

Porém, Mulan também encara um destino oracular: o Grilo da Sorte. O grilo da sorte não lhe dará toda sorte, muito lhe dará alguma sorte geral – isso é motivo de piada por Mushu durante toda a película. O Grilo vai lhe trazer o amor. O Grilo é o destino oracular de Mulan: ela vai casar, ser feliz e se realizará quando o fizer. Encontrará o amor de sua vida e fará bem aos ancestrais da família. Toda a metafísica do filme se dá ao redor do Grilo e de Mushu: há uma história submersa que é a história que conta como Mulan deve aceitar seu destino.

O humor desse filme é sensacional por conta desses dois personagens.

A chinesa consegue enganar, através de ardis e grande inteligência, toda a sociedade a sua volta. A personagem se esconde para ser enxergada, e essa mensagem é poderosa quando pensamos que a realização do destino social se dá essencialmente no presente: Mulan torna-se homem. Pois o seu passado (ser mulher) e o futuro que está atrelado ao mesmo (casar-se e não batalhar) só pode ser apagado se ela agir no presente. Os únicos seres da história que sabem da Verdade (portanto, sabem do passado de Mulan), são exatamente os únicos seres fabulosos da mesma: o dragão Mushu, o cavalo e o grilo.

(O plot da troca de sexo é constante no mundo do entretenimento, e eu sinceramente não tenho a mínima capacidade de tratar sobre isso. Além disso, o importante aqui não é – pra mim – o símbolo da mudança de sexo. O que importa é como esse gesto é ativo no presente da personagem do filme.)

Quando Mulan encobre seu passado, ela passa a ter de se adaptar e conviver. E consegue: ela se torna o melhor soldado do Capitão Lee Shang (que está a procura de seu “Alguém pra Quem Voltar“), e até um interesse amoroso – novamente, reitero: a questão da sexualidade aqui não é importante pra essa análise, mas seria interessante – meio confuso. O filme se desenrola para a redenção de Mulan dentro daquela sociedade: ela (1) aceita o amor de Lee Shang e (2) é aceita como chefe militar. Essas duas consequências finais são a resolução para o conflito entre passado, presente e futuro em Mulan.

Quando a segunda consequência se realiza, Mulan se redime do passado. Toda a carga social e moral daquela social é transformada: Mulan agora honra não apenas a todas as mulheres, mas honra toda a China. Ela é a chefe militar que evitou a vitória dos mongois: junto do seu parceiro amoroso, Mulan cria seu próprio destino social e acaba com qualquer possibilidade de que o futuro que lhe tinha sido imposto, se realize.

Porém, o futuro continua sendo oracular: Mulan deve seguir o que o Grilo lhe impõe. Ela tem, como destino oracular, o amor. Encontrou-o em Lee. Vai poder desfrutar do mesmo com toda a felicidade do mundo.

É engraçado notar como Mulan passa pelas três escolhas perante o destino oracular. No início do filme, fataliza-se e aceita o que lhe determinam. No meio, revolta-se, fugindo e combatendo o seu destino. Ao final, não é necessária uma tragédia para o que o Oráculo lhe determinou acontecer: ela resigna-se e, principalmente, ama o destino que lhe foi pregado.

Mulan só pode aceitar seu destino oracular por que combateu seu destino social. A realização do amor fate de Nietzsche se dá através da negação do que a coletividade lhe impôs e do reconhecimento de que Mulan ama Lee Shang. E, ao amar Lee Shang, ela ama a profecia que lhe foi imposta no começo do filme: como toda boa mulher chinesa, Mulan irá casar.

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