Filmes

Janela Indiscreta: uma crítica iluminista

Um dos meus filmes favoritos de Alfred Hitchcock (1899 – 1980) é Janela Indiscreta (ou Rear Window) no original em inglês. Às vezes eu assisto, reassisto, e fico me perguntando uma coisa: seria esse um filme crítico ao método científico? Ou, ao contrário, um elogio ao pensamento dogmático? Ou, então, uma crítica tácita à “filosofia artificial”, como diria Husserl?

Não acredito que eu vá chegar numa resposta, mas vou buscar trazer argumentos positivos à tona.

Janela Indiscreta é um filme de 1954, dirigido por Alfred Hitchcock e escrito por John Michael Hayes com base no conto ‘It Had to be Murder’ de Cornell Woolrich. Lançado pela Paramount, tem em seu elenco grandes atores do momento, como James Stewart e Grace Kelly. É considerado um dos maiores filmes de todos os tempos.

O filme conta a história de Jeff (James Stewart), um homem que fica impossibilitado de exercer suas atividades cotidianas devido a uma fratura no pé, o que o coloca numa cadeira de rodas. Assim, no alto do ócio causado por esse disparate momentâneo, Jeff começa – com câmeras e binóculos – a observar os vizinhos de um prédio que se encontra em frente ao dele. Assim, como um stalker, começa a observar, conhecer e acompanhar a vida dos seus ‘vizinhos’.

Assim, Jeff começa a construir uma relação com cada membro daquela comunidade que é o prédio vizinho. Há o casal recém-casado, a solteira, e o suspeito: Torwald. No meio de suas observações, Jeff começa a perceber movimentos, atitudes e casos suspeitos no comportamento do vizinho; passa a película quase toda sendo contestado por personagens que lhe são próximos (sua noiva, sua enfermeira e seu amigo e detetive, Tom Doyle). Ao final, Jeff estava correto: Torwald era um criminoso que tentou assassinar o próprio Jeff, e o detetive tem que reconhecer seu erro ao confirmar a expedição do mandato de prisão.

Pois bem, são duas as ‘questões problemáticas’ que eu vou apontar aqui para tentar provar o ponto ao qual eu quero provar. Elas são:

  1. Jeff parte de uma certeza (Torwald é criminoso) para encontrar as provas ao crime.
  2. Quando confrontado com argumentos contrários (Tom Doyle), ele não busca provas mais consistentes ou desiste do que acredita: ele convence os outros do seu ponto para confirmá-lo.

Jeff parte da certeza de que há um crime sendo cometido por Torwald, e parte em busca de provas para que ele possa incriminar o vizinho. Durante todo o percurso do filme, ele parte do pressuposto “Torwald criminoso” e se utiliza disso como viés de confirmação todas as vezes que é enfrentado por alguma argumentação racional da impossibilidade do que está pensando (o ‘racional’ é o personagem Tom Doyle).

(Um parêntesis aqui, para uma análise mais estrutural da obra de Hitchcock pós-50: é impressionante como a tensão e o thriller do diretor estão sempre na oposição com a razão. O diretor e suas histórias parecem sempre se deparar com a razão como o opositor do personagem que busca um determinado algo.)

Ao manter a posição – que qualquer um que levasse minimamente em conta o fazer científicofilosófico sem dogmas teria se retificado – e insistir fanaticamente na criminalidade de Torwald, Jeff rejeita o paradigma científico da comprovação para insistir no dogma.

A partir daqui, podemos pensar em duas possibilidades de análise, principalmente devido ao final. Quando o filme termina com a comprovação da criminalidade de Torwald – e o “braço torcido” de Doyle -, Jeff se vê satisfeito em sua cadeira – agora com as duas pernas quebradas devido aos acontecimentos do filme.

Disso, podemos entender, de uma maneira um pouco superficial, que o dogmatismo pode vir a ser útil para a teoria científica. Jeff só atingiu a verdade a partir do momento em que ele já a tinha para si: apenas depois disso que ele passou a averiguar os elementos que comprovariam sua tese. Ao apresentá-la, ouviu os argumentos, e passou a contestá-los: a verdade já estava ali, dada, descoberta para ele. Quando Doyle a negava, ele negava a realidade que estava dada aos seus olhos: a noiva e a enfermeira já tinham se entregado à sabedoria, enquanto o detetive, maldito recluso à razão, ainda não.

Porém, a crítica pode se aprofundar. Husserl fala do “filosofar artificial”, que seria combatido pela fenomenologia – o estudo dos fenômenos – e pelo aceitar da Verdade. Quando se filosofa artificialmente, há quase que um forçar-se a filosofar – seja ele através do domínio econômico (aproximando Husserl de Marx), seja ele através do domínio cultural – fugindo da essência do amor (philos) ao saber (sophos). Quando os primeiros gregos pensavam no ócio filosófico essencial, pensavam em algo que era planejado e plantado: Sócrates, Platão e Aristóteles justificaram seus sistemas políticos para a existência do ócio, que levaria aos ‘mais capazes’ à filosofia. Francisco de Assis renunciou à viver como os homens para poder ‘transcender’: a mendicância seria parte integrada do refletir.

Quando Jeff é posto ao ócio forçado – depois de, inserido na sociedade capitalista como estamos, anos e anos de aproveitamento do seu trabalho -, começa a inquietar-se com a Vida. Porém, não se abstém de seus dogmas anteriores: ele não precisa, pois seu ócio é temporário. Suas certezas irão se manter após esse pequeno período de tempo em que ele vai ser forçado a encarar-se (e encarar o mundo). Ao enfrentar a Verdade, ele não está disposto a se despir do que tem certeza e – assim como a maioria dos filósofos – encontra argumentos para suas verdades (e não argumenta a partir da verdade). Os filósofos do século XVIII ficariam impressionados e enojados com tal atitude (mesmo que, tacitamente, também a cometam). Pierre Bayle, mesmo protestante, mostrou grande oposição a toda atitude dogmática. Voltaire elevou ainda mais, tratando sobre tolerância em pleno mundo intolerante. Immanuel Kant, por fim, resolveu o problema da Verdade.

No final, Jeff encontra-se duplamente impossibilitado pelas suas atitudes: seu ócio retro-alimentou-se. Filosofou errado, e continuará fazendo isso em ciclo. Seu erro? Condenar sem provas e, como o Sofista, provar sua (in)verdade. Pelo erro e ignorância, como já alertava Spinoza em meados do século XVII, cometer o pior dos pecados: a injustiça.


P.S.: Este pequeno ensaio não representa totalmente as minhas opiniões. Não acredito numa “Verdade” ou num “filosofar corretamente”. Foi muito mais um exercício de filosofia iluminista – pois estou dando aulas sobre o tema – do que a minha opinião expressa.

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