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Ensaio sobre o caminho e o reflexo do vampiro: existência e redenção no não-reflexo

“O destino do vampiro, cujo espelho não reflete nenhuma imagem, nem mesmo invertida, simboliza aqui o destino de qualquer pessoa e qualquer coisa: não poder provar sua existência por meio de um desdobramento real do único e, portanto, só existir problematicamente.” ROSSET, Clement. O Real e seu Duplo, pp. 66.

“A perda do duplo, do reflexo, da sombra, não é aqui libertação, mas efeito maléfico: o homem que perdeu o seu reflexo […] não é um homem salvo, mas sim um homem perdido.” ROSSET, Clement. O Real e seu Duplo, pp. 78.

Os vampiros têm uma grande importância folclórica e simbólica, principalmente na mídia (tanto literária quanto cinematográfica) dos séculos XX e XXI. Somos eventualmente bombardeados por levas de filmes de vampiro, com novas roupagens, novas mitologias, e mundos próprios. Muitas vezes como o único elemento distoante e imaginário daquele mundo (como em Entrevista com Vampiro), outras vezes acompanhados de eternos inimigos, os lobisomens (como em Crepúsculo ou Anjos da Noite).

Porém, esse texto não vai ser pra falar exclusivamente sobre esse ou aquele universo de vampiros. Vou tentar trazer aqui um ensaio sobre a possibilidade metafísica da existência do vampiro dada através de dois movimentos internos das histórias e narrativas que nos são apresentadas: um dos elementos mais simbólicos da sua mitologia, ou seja, o fato de vampiros não terem reflexo (elemento não-mutável) e o caminho de redenção que envolve o negar-se vampiro (elemento mutável).

Estou propondo que os vampiros existem?! Não. De maneira alguma, aliás: todos nós sabemos da impossibilidade real da existência de tal ser pela simples comprovação matemática – a progressão geométrica de Euler prova matematicamente a impossibilidade de uma espécie que consome e transforma outra espécie existir biologicamente. Ou o vampiro se alimentaria muito pouco, ou a população mundial seria completamente vampiresca em poucos meses – o que caracterizaria o fim da própria espécie dos vampiros (aliás, a prova matemática para a não-existência do vampiro é a mesma que prova como os esquemas pirâmide, como Herbalife, não fazem sentido nenhum). O que proponho aqui é um ensaio metafísico sobre essa figura mítica e mitológica que é o vampiro e a relação dessa mitologia com a representação que o homem faz de si e do mundo.

Parmênides de Eleia tem em uma de suas máximas o seguinte axioma: “O Ser é”, cuja consequência lógica (até um pouco silogística) é “e não pode não ser”. Partindo dessa máxima, Parmênides comprova a Existência. A lenda do vampiro, porém, nos traz duas indagações sobre o Ser. A primeira indagação caminha para além da própria existência do vampiro: o vampiro é um estágio, um tipo de pós-humanidade onde o que se encontra de male (a morte) se compensa pelas recompensas materiais (força sobrehumana, beleza inatingível). A segunda, também, cria-se a partir do paradoxo principal do ser vampiro: um ser imortal e morto. A Alma do vampiro permanece no corpo daquele ser? Se sim, como ele está morto? O que é morrer para um vampiro? Há, porém, um princípio que não deixarei de seguir, como uma regra axiológica: todo vampiro é um ser morto. Seguirei essa regra pois entrar na seara dessa discussão levaria a questões filosóficas maiores dos que a procuro tratar aqui (o que é a vida?). Partimos do pressuposto de que a morte do vampiro é a mesma da morte biológica. O corpus biológico deixa de existir.

A realização desse texto vai se dar, assim, em duas partes, que sairão em duas semanas seguidas. A primeira parte, vai se propor um grande ensaio sobre o reflexo: o reflexo no espelho do vampiro partindo da filosofia trágica de Clement Rosset e Nietzsche, tentando chegar assim a uma “metafísica do vampiro”, o elemento não-mutável nessa “mitologia”. Na segunda parte, gostaria de propor a análise de quatro figuras do vampiro, sendo três delas mais detidamente (BladeCrepúsculoEntrevista com Vampiro) e  a quarta, mais panorâmica, aproximando-se de uma das outras figuras bestiais (e mais historicamente precisas) da lenda do vampirismo (as figuras tradicionas, o Drácula de Bram StokerNosferatu Anjos da Noite).

Mas, para isso, gostaria de fazer uma pequena introdução sobre a alteridade do Vampiro:

Epistemologia e Alteridade do Vampiro

Nós nos definimos a partir do Outro? Parece um meio senso-comum, mas, tendo em vista que há grandes debates e discussões – tanto historiográficas, quanto filosóficas, e até psicanalíticas – quanto a isso, acredito que o panorama humano se dá, sim, a partir do contato com os outros. O ser humano nunca está só, e todos os sistemas filosóficos e epistemológicos que visão definir o(s) homem(s) e o mundo partem de um algo externo (seja ele percebido esteticamente, seja ele percebido socialmente) para a sistematização epistemológica em si.

Sistematização epistemológica? Vou ser mais claro: epistemologia, segundo a Wikipédia, é o “o ramo da filosofia que trata da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, especialmente nas relações que se estabelecem entre o sujeito e o objeto do conhecimento“. Os grandes filósofos pensaram em sistemas epistemológicos: afinal, para explicar o mundo, é preciso antes entender como o Homem (e todos os filósofos fizeram parte disso que chamamos humanidade) entende o conhecimento. Aristóteles definiu o homem a partir da sua capacidade racional, porém enquanto um animal racional que supunha a coexistência social – e o contato com outros seres humanos -; Lévi-Strauss, Braudel e outros que chamamos de estruturalistas, definiram o homem como produto social, seja da História (Braudel), seja da Estrutura Social (Lévi-Strauss). Poucos sistemas filosóficos negam o Outro e colocam a proeminência no Eu – e mesmo os sistemas que fazem isso, como o cartesiano, reconhecem a sua incapacidade de lidar com a existência do Outro. No limite, o “penso, logo existo” apresenta uma grande contestação: se minha existência é assegurada pelo pensar, pra quê coexistir com outros pensantes – e que, pior, pensam diferente!?

O problema do Outro é um tópico de discussão essencial na História da Humanidade e, também, do pensamento: algumas das primeiras descrições sobre os indígenas da América partiam de pressupostos demoníacos. A obra seminal, a de Paul Hazard – a Crise da Consciência Europeia 1680-1715, livro que trato um pouco melhor em texto do GizCast (clique aqui para ler) – parte do contato com o Outro (principalmente o oriental, mas o Outro americano é deveras importante para ser ignorado) para demonstrar como o Iluminismo – base do nosso pensamento atual – é resultado desse encontro.

Mas por quê enrolo tanto para chegar no problema do vampiro em si? Pois a grande origem lendária e filosófica do vampiro é a relação com o Outro. Nathan Wachtel narra num belíssimo ensaio etnográfico o renascimento de contos e lendas de tribos urus bolivianas após a conversão ao cristianismo. Ao enfrentar a alteridade, os homens (e, por conseguinte, suas mitologias e tradições) se reencontram com essa tradicional figura que é o vampiro. Porém, não é o nosso vampiro galante e sensual, completamente integrado à civilização – e que se utiliza da mesma para poder satisfazer-se das atrocidades, quase como narra Sade em Os 120 Dias de Sodoma, onde quatro ricos se utilizam dos privilégios que têm em uma França do Antigo Regime para realizar sua gratificação sexual – e sim um vampiro bestializado, muito mais próximo dos lobisomens, em que a selvageria e a bestialidade são essenciais para que o medo se instaure.

Daqui em diante, me permito fazer uma análise não-histórica do mito do vampiro. E, pra isso, sigo o que Mircea Eliade define como mito: o mito é sempre precedenteexemplo  do homem. “Nós devemos fazer o que os deuses (ou Deus) fizeram no princípio” é a máxima que encabeça um antigo ditado indiano: seguir os deuses (o mítico) para poder fazer o certo (a realização mítica) – uma questão determinista. Mesmo o mito do vampiro sendo um “mito degradado” em lenda, e vamos analisá-lo como mito e, indo mais além, pretendo relatar as problemáticas metafísicas.

Eu tenho inúmeras críticas à aplicação do método de Mircea Eliade ao estudo das religiões: o que chamamos de “fenomenologia das religiões”, que pega o ‘mito’ e retira o mesmo do seu momento histórico como se fosse um corpo a ser dissecado, tem limitações que as próprias estruturas do tempo nos impõe – o que faria com que caíssemos no anacronismo. Porém, quando do estudo desse tipo de narrativa que pretendo fazer nesse texto, acho que as ideias eliadeanas são de extremo interesse, principalmente partindo dos pressuposto de análise do imaginário, como o fizeram tantos outros filósofos e “antropólogos” – como Gilbert Durant (na segunda categoria) e Rogério de Almeida, professor da USP, na primeira. O ‘mito’ que analiso não é mais que uma narrativa: podemos analisá-la do modo como quisermos. Eu gosto de manter o rigor metodológico, mas poderíamos levar essa narrativa uma análise psicológica (como faz o Dentro da Chaminé), ou, como me proponho aqui, a partir das implicações filosóficas.

Como gosto de dizer aos meus alunos: além de conhecimento, a filosofia é gostosa de se brincar. É isso que pretendo fazer inicialmente, com esses ensaios – e também com todos os textos desse blog.

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