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Grandes Universos: classificando os universos

Eu tenho alguns grandes interesses na vida, e tenho uma grande tendência a “academizar” esses interesses, mesmo que eu não pesquise nada academicamente sobre esse tema si. Além do meu próprio tema de pesquisa – História das Religiões na Modernidade, com foco no século XVI -, eu tendo a pensar tudo de uma maneira acadêmica e chata. Além da pesquisa, meus outros grandes interesses são a filosofia e a cultura pop.

Dentro da cultura pop, algo que me apaixona perdidamente são os universos que são desenvolvidos nela. A construção de universos de tipos tão distintos, dos místicos e fantasioso como Senhor dos Anéis até aqueles cuja realidade deve ser palpável e que tem elementos extra escondidos, como Crepúsculo Harry Potter.

Eu adoro construção de universo, como eles funcionam como suas próprias mitologias – mitologias modernas, como diria Campbell. Eu azedo muito quando uma obra tem um universo extremamente bem construído, mas não consegue desenvolvê-lo (tipo Crepúsculo); e se a obra não tem um universo tão complexo, se a história não for muito boa, ela não me prende.

Por conta disso, eu decidi escrever uma série sobre Grandes Universos da Cultura: como eles funcionam, quais são as lógicas existenciais deles que me atraem, quais são os grandes exemplos, os contra-exemplos… Enfim. Pegue na minha mão amiguinho: nesse primeiro texto eu quero dar alguns exemplos – e teorizar um tiquinho – sobre o que traz consistência a um universo criado.

Da Mitologia à Filosofia à Mitologia.

Uma grande questão dentro do estudo da Filosofia e da História da Filosofia é sobre o seu surgimento. A sistematização e até a nomeação da palavra “Filosofia” (que vem do grego philos, cuidado, com sophos, conhecimento) vêm dos gregos, por volta do século V antes de Cristo: assim, atribuímos aos gregos a criação desse sistema de análise do mundo que é o filosofar e tudo o que o acompanha. A partir disso, a grande questão é definir o momento de diferenciação da Filosofia e da Mitologia: seriam dois sistemas completamente opostos? Ou há um processo de “naturalização” de elementos mitológicos na primeira filosofia naturalística grega – e também nos desdobramentos teológico-platônicos posteriores? Para além, é importante notar: há uma lógica na Mitologia.

As primeiras mitologias antigas e sistemas religiosos, como bem apontou Mircea Eliade no seu Tratado de História das Religiões, são formadas por dois tipos de pensamento que estão em constante relacionamento dialético: o pensamento racional e observador, e o pensamento transcendente e explicador. A observação gera a necessidade de uma explicação para a vida: as explicações mitológico-religiosas não são necessariamente as “fáceis”, e sim o que se pode fazer combinando os dois tipos de pensamento. O Homem não consegue viver com a inconstância ou com perguntas sem respostas – não, pelo menos, até ter um sistema que apresente pelo menos os meios de encontrá-las. Esse sistema? A Filosofia.

Como grande retomada dos sistemas mitológicos antigos, uma retomada da forma para encerar outro conteúdo, os universos ficcionais criados pela cultura literária dos séculos XVIII e XIX – como Júlio Verne Daniel Defoe – são em forma o que a mitologia era para os gregos: histórias que têm um mundo cuja lógica não é a natural do nosso mundo, mas que é natural naquele lugar. É natural para os co-universais (neologismo que me utilizarei aqui para significar os personagens/personas que se encontrar no mesmo universo do personagem/persona exemplificado) do Capitão Nemo que haja aquele submarino naquele momento, e também que se utilizem daquelas roupas para viajar pelo fundo do mar e tudo o mais.

(Mesmo que não seja natural, a não-naturalidade do acontecimento “fantástico” é elemento integrado da história e não do universo. O universo tem suas regras, que são escondidas das pessoas ‘comuns’, mas que não podem fugir da própria regra estabelecida pela construção daquele universo: o fato dos ‘trouxas’/non-majs não saberem da existência dos magos, não muda o fato de que magia tem seus limites e suas regras.)

Sendo assim, é importante ressaltar: um universo fictício tem suas próprias lógicas, suas próprias intenções e suas próprias limitações. Existem leis naturais que devem ser seguidas, assim como a Lei da Gravidade na nossa realidade. No mundo de Avatar – A Lenda de Aang e sua sequência, há uma regra de que o Avatar deve renascer quando da morte do Avatar anterior, e que essa entidade mística seja o grande motor de equilíbrio do mundo. O que o Senhor do Fogo faz para evitar que o Avatar atue no mundo é congelá-lo: ele “burla” o sistema utilizando-se dele mesmo. O avatar Aang não tinha morrido, mas também não era atuante: o desequilíbrio do mundo (lei natural daquele mundo) foi gerado a partir de um recurso que o universo permitia que existia (não foi apenas uma gag no roteiro que é o plot central).

Portanto, é importante notar como essa construção de universos é importante para a riqueza de uma história. Uma boa trama é envolvente quando cria elementos universais – regras gerais – e elas interagem entre si, construindo limitações notáveis ou facilitações para os personagens. Um universo bem construído brinca e age na nossa “suspensão de descrença” de maneira completa e que não nos faz questionar o funcionamento das engrenagens daquele universo: nos faz pensar dentro da lógica interna do mundo em questão.

Retomando Mircea Eliade: as mitologias são criadas a partir da fundamentação mitológica, mitográfica e mítica que é inerente ao pensamento humano (vamos deixar claro aqui que, enquanto perspectiva metodológica para a questão religiosa a corrente eliadiana é extremamente defasada, anti-histórica e limitada; porém, para uma análise filosófica e conceitual da psiquê humana através das grandes estórias que a Humanidade cria, ela é interessantíssima, não atoa segue os passos de Jung). Essas mitologias contemporâneas, que vão desde Júlio Verne até Como Treinar o Seu Dragão? constroem elementos míticos, mas com outra essência: mantendo a forma mítica, trazem perspectivas diversas de análise da humanidade.

Esses universos podem ser classificados em duas perspectivas que separarei aqui: uma perspectiva vertical sobre a proposta enquanto obra artística/lúdica (que vai da crítica total ao escapismo total) e uma perspectiva horizontal sobre a ficcionalidade e a realidade do mundo (que vai da fantasia completa à realidade próxima). Lembrando que a classificação não é maniqueísta, e sim posicional: tal mundo é 40% crítico 80% fantasioso, e etc. Vou estabelecer um pouco melhor as duas características, recheando-as de exemplos:

Perspectiva vertical: proposta enquanto obra.

Esse eixo do “compasso” estabelecido é o eixo do intuito da obra. Não apenas enquanto um produto cultural, como analisou Gramsci, com um proposto ideológico; mas, principalmente, uma comparação do universo proposto com a proposição de um sistema filosófico. Um universo como o de Harry Potter é claramente crítico e progressista: toda a luta contra Voldemort e o discurso supremacista que os de “sangue puro” têm é bastante veemente. Enquanto isso, o universo de Lord of the Rings ou de Star Wars pós-segunda trilogia, afastam-se de perspectivas propriamente políticas para criar um novo modelo espiritual-transcendental e universal; realmente criar novas mitologias universais que, mesmo que não substituam as mitologias antigas em si, tenham o mesmo intuito de servir de base moral/ética para os seus leitores. (Os filósofos gregos como Sócrates e Platão utilizavam-se da mitologia não enquanto Verdade absoluta, diferente do cristianismo/judaísmo/islamismo; eles pegavam exemplos da mitologia para definir a “justiça”).

Assim, essa perspectiva levar ao niilismo próprio de alguns eventos temporais (Rick & Morty tem um episódio singular sobre isso, e o final de Doutor Estranho traz à tona um desprendimento com a vida que Epicuro elogiaria) até a utilização de metáforas políticas que só um universo como Admirável Mundo Novo ou o universo Marvel (com os X-Men) pode apresentar. A força dessa representação ideológica e política vem a partir da perspectiva pessoal de empoderamento: a representação do indivíduo imigrante com poderes (ou então a metáfora clara com a homossexualidade, no caso dos mutantes) e empoderamento é extremamente latente. Ou até o “aviso” que as distopias do século XX trazem em si, como Admirável Mundo Novo, 2001: Uma Odisseia no Espaço ou 1984.

Portanto, essa é a perspectiva que diferencia a criação de universos da cultura pop das mitologias clássicas e orientais: há uma grande diferenciação no conteúdo a ser tratado. Há uma sua própria finalidade na criação desses universos, que não é a simples explicação do mundo.

Perspectiva horizontal: aproximação.

Aqui, há a perspectiva que se mantém essencialmente próxima das mitologias antigas: a forma. Os mundos se constroem de diferentes maneiras, mas – normalmente – as estruturas narrativas são semelhantes. Mundos como Harry PotterCrepúsculo ou até os mundos dos animes constroem-se através da narrativa da história – assim como o nosso mundo foi criado narrando a história de Gaia e Urano, no mito criacional grego. Essa história torna-se História naqueles mundos: a existência da disciplina de História da Magia em Hogwarts é significativo. Em Avatar, o início de todos os episódios é a narrativa da história daquele mundo.

(Há algumas exceções, e suas propostas são interessadas. Eu particularmente adoro filmes que pegam apenas um momento da vida dos seus personagens e nos mostram eles com simplicidade, como Eu, Daniel Blake ou The Descendents. Mas como a construção de um mundo é muito mais complexa, isso se torna difícil, mas não impossível. O Avatar do James Cameron faz isso com alguma competência, por exemplo. Todos os mundos visitados pelos eXilados, grupo de mutantes que visitava várias realidades alternativas da Marvel, também são extremamente interessantes.)

Sendo assim, nesse eixo, visei dividir a notação dos universos através de o quão o seu elemento fantástico é visível ou não. Me apetecem muito mais os universos em que a “transnormalidade” é regra: eles mostram um afastamento total do nosso mundo – afinal, num mundo em que há magos, não faz muito sentido eles se esconderem pela História – ou então uma nova proposta de pensar o mundo. A série Marvels da Marvel é incrível exatamente por isso: mostrar a perspectiva comum dos grandes acontecimentos da História daquele universo.

À guisa de conclusão.

Faço isso para começar uma baliza que eu quero delimitar nos próximos textos da série. Eu tenho alguns problemas com certas histórias e universos devido às suas limitações enquanto universo. Algumas das minhas críticas mais veementes à DC Comics partem desse princípio – haverá um texto apenas sobre isso no blog – de falta de consistência lógica no seu universo.

Além disso, boa parte da empatia para com uma história parte dessa identificação com o universo da mesma. Normalmente as grandes histórias se utilizam dessa estratégia dupla: ou o apelo à distância, ou o apelo à proximidade. Em Star Wars, aquela história poderia estar acontecendo nesse exato momento; enquanto isso, no mundo de Harry Potter, qualquer um pode vir a receber sua carta de Hogwarts, assim como qualquer garota pode conhecer seu galã vampiro. As obras menos apelativas – e mais críticas, como Admirável Mundo Novo ou 1984 – demandam uma distância-não-tão-distante que gera a necessidade de mais investimento por parte do interlocutor (espectador/leitor/etc) quanto à identificação com aquele universo.

 (Uma das minhas críticas à DC é essa: há um grande apelo sobre as identidades secretas dos seus personagens, e as cidades-símbolo da editora foram criadas para se encaixarem em qualquer metrópole estadunidense; a coletivização do universo gera grandes dificuldades e paradoxos que são bem difíceis de transcender.)

Não à toa, uma das melhores séries recentes da DC Comics foi Crise de Identidade.

Continuaremos analisando os universos a partir dessa perspectiva iniciada com esse texto.

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