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Bastardos Inglórios: Entre a Liberdade e a Verdade

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Há uma complexa relação entre História e Ficção e, principalmente, entre História e Mídia. A História é, provavelmente, a ciência humana mais midiática que tem. Conhecida por seus depreciadores como “fofoca de gente morta”, ela acaba se tornando uma das disciplinas mais complexas e profundas de se estudar, principalmente por conta disso.

As forças políticas conservadoras tomam a História como a principal fonte de justificativa para o conservadorismo: o romantismo do século XIX, o autoritarismo do início do século XX, o conservadorismo moral-religioso do século XXI. O que todas essas correntes político-ideológicas têm em comum? A idealização do passado. Criam herois, lendas e mitos sobre um passado mais “honroso”, mais “glorioso” ou até mais “simples”; assim, justificam seu movimento reacionário, contra as mudanças sociais, culturais e políticas.

(Permito-me abrir um parêntesis aqui: Não quero tomar a perspectiva de que existe uma “evolução própria” da sociedade, um “caminho das pedras” que vai levar a um futuro mais ‘evoluído’, ‘esclarecido’ ou ‘iluminado’. Nisso acredito que tanto o Iluminismo do século XVIII quanto o Socialismo do XIX são limitados. O conservadorismo é um fator do tempo, um movimento ideológico de reação à cultura, assim como os movimentos emancipatórios também o foram. A grande questão aqui é realmente tomar um partido: o conservadorismo é perigoso para as pessoas. Não todas as pessoas, mas algumas delas. E, como tendo a me identificar como um “humanista cristão”, acredito que a defesa das pessoas vem antes de qualquer outra coisa. Segue o jogo:)

E esse movimento de idealização é o que mais aparece dentro das grandes obras históricas do nosso tempo, principalmente as do cinema. Coração ValenteTitanicThe Crown: todas essas obras são baseadas numa suposta aproximação com a realidade.

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Mas o filme até que é bom.

O grande problema em lidar com o passado ficcionalizando-o (mas não deixando isso claro) é o problema do método. Claro que nós historiadores somos extremamente chatos e rabugentos – mas isso qualquer cientista é quando as pessoas começam a bostejar sobre o seu tema de pesquisa -, mas existem pequenos detalhes que precisam ser divulgados, analisados e pensados em uma perspectiva não-narrativa exatamente pra quebrar a narrativa.

Quando eu me detenho a contar uma história, mesmo que eu supostamente tente contá-la sem fazer qualquer juízo de valor, há uma perspectiva interpretativa no modo de contar essa história. Quando eu digo que estou sendo imparcial, eu só consigo ser uma coisa: desonesto. E aí entra o ponto principal da minha análise: um filme que mente descaradamente sobre a História mas apresenta um ponto é mais honesto. E eu prefiro que sejam honestos comigo.

O filme Bastardos Inglórios do diretor Quentin Tarantino é exatamente isso: uma história completamente ficcional que se passa num dos períodos mais representados da história (a Segunda Guerra Mundial). E é uma das obras históricas mais honestas de todos os tempos, muito além de qualquer outra que “se utilize de documentos” (como toda a bibliografia escrita pelo Laurentino Gomes, por exemplo).

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O filme de Tarantino é catártico, poético, incrivelmente pouco documentado – com exceção da cena do Churchill – e com pouquíssimas referências históricas reais. E isso é lindo: o roteirista (que, no caso, é o próprio Tarantino) consegue trazer uma mensagem política clara, histórica e real sem se prender em detalhamentos históricos que devem ser feitos por historiadores.

Estou aqui fazendo uma ode ao fim dos “documentários históricos” midiáticos, aos livros de “divulgação” escritos por jornalistas conservadores que são “imparciais” de uma maneira extremamente tosca. Mas não por isso, eu nego a importância da divulgação científica: só que ela deve ser feita de maneira certa, com rigorosidade acadêmica (mesmo que mínima) e com seriedade. Existem livros incríveis de divulgação científica histórica: a trilogia das Eras do Eric Hobsbawm, o livro Martinho Lutero: um destino do Lucien Febvre (escrito há quase 60 anos), dentre outras.

No momento em que Tarantino assassina Hitler, mostra ele sendo cravejado de balas e depois toda a alta cúpula nazista sendo brutalmente assassinada com um incêndio uma explosão. A catarse histórica disso é incrível: a mensagem ideológica que fica é “deveríamos ter feito isso”. Pra mim, é muito mais válido do que qualquer “reprodução ultra fiel” da realidade que cria um espantalho de heroísmo ao redor de figuras terríveis, como Margareth Thatcher.

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