Séries

A latinidade em Club de Cuervos

Começo esse texto com um aviso geral: não sou eu a pessoa ideal a escrevê-lo, mas ele precisa ser escrito. Porém, este texto é moralmente pertencente ao meu grande amigo e compañero de vida, Rodrigo Almeida, vulgo Rods, que foi el cabrón que me apresentou essa série maravilhosa. E também um dos maiores conhecedores da cultura latina que eu pude conhecer.

Além desse primeiro aviso, para melhor compreensão do texto, um conhecimento mínimo sobre o que é a página Testes de Macho é necessário. Tentando definí-los – e talvez falhando completamente -, gosto de pensar que a Testes prova que “virilidade” não está relacionado com nada além de caráter. Não é algo sexual e nem de gênero. Está na grandeza moral de alguém.

Pois bém, após esse pequeno aviso, vamos ao tema. Club de Cuervos é a primeira série do Netflix produzida em espanhol. Criada por Gal Alazraki e Michael Lam, estreou na plataforma de streaming no ano de 2015 e já possui duas temporadas lançadas, com a terceira já confirmada.

potro-tony-cucaCuau, El Potro y Tony.

A série conta a história do Club Cuervos de Nuevo Toledo, clube (fictício) tradicional – porém pequeno – do futebol mexicano, que nunca ganhou nenhum título nacional de importância desde a sua promoção para a primeira divisão do campeonato mexicano de futebol. O primeiro episódio nos mostra a morte de Salvador Iglesias, dono e presidente do clube; com sua morte, a responsabilidade fica com Salvador “Chava” Iglesias e Isabel Iglesias-Reina, seus filhos.

Pois bem, não é uma resenha e nem uma apresentação à série que farei aqui. Assistam-na: é um baita sitcom latino, que nada deixa à dever com os sitcoms americanos. A série me lembra muito Arrested Development no tipo de humor – só que sem o niilismo. Além disso, assim como em Arrested Development, os personagens de Club de Cuervos se dão mal por não largarem mal do que lhes prende.

Duas coisas me chamaram a atenção nesta série: a óbvia “latinidade” do brasileiro (que este tenta esconder) e a “grandeza moral” que o latino-americano típico (quase esteriotipado) tem.

Sobre o primeiro: a realidade de Nuevo Toledo poderia ser a realidade de qualquer cidade do interior do Brasil. Quer dizer, hoje o único time da série A que está numa cidade “pequena” é o time da Chapecoense e o Santos. O Santos é reconhecidamente um grande campeão nacional (blé), e a Chape não é um time essencialmente tradicional, está há menos de 5 anos na primeira divisão. Uma das primeiras comparações que eu pensei foi com o Goiás ou a Ponte Preta.

E aí enfrentamos nossa primeira questão, que é quase um mantra: o brasileiro não se vê latino. E isso é estudado: os brasileiros ignoram completamente a cultura latino-americana. Porém, é inegável a proximidade entre nuestros vizinhos e nosotros: nós disputamos o mesmo campeonato de futebol nos diversos níveis (e a importância do futebol para a identificação territorial e regional é importante cultural e politicamente, veja a disputa de Israel e da Turquia nas eliminatórias europeias) e o segundo maior canal de televisão do país teve, historicamente, sua programação baseada em reproduzir séries mexicanas. Isso pegando apenas exemplos extremamente atuais, deixando de lado outras “coincidências” históricas.

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E até nas coisas ruins a série nos mostra a proximidade. Os casos de desconfiança da população de Nueva Toledo para com a pansexualidade de Aitor Cardoné seriam facilmente reproduzidos em qualquer local do nosso querido Brasil.

A vivência com o futebol na série é de muitas maneiras semelhante à que se vê aqui no Brasil. Temos os grandes entusiastas (Rafa Reina, Isabel Iglesias, Félix) e os que se utilizam do futebol como trampolim social e/ou econômico (Mr. Chen, Chava Iglesias); mas a presença intrínseca do futebol dentro da comunidade nuevotoledana é fundamental. Não se vive em Nuevo Toledo sem marcar presença nos jogos do time – e, quando em determinado momento da série um novo time aparece em Nuevo Toledo, a população da cidade simplesmente ignora o novo time. Não se constroi uma rivalidade entre as duas equipes, porque a segunda não pertence ao local.

As relações do futebol com a política – e vice-versa – são um outro subtópico trabalhado no seriado, e que aparece claramente (outra grande relação com o Brasil). O governador se utiliza do futebol para ganhar popularidade, fazer carreira e outras coisas a mais que estamos muito bem acostumados aqui no Brasil. Relações escusas dentro das instituições de futebol, a malícia brasileira e sul-americana, os jogos de poder muito mais pautados em relações familiares do que nas relações sociais. Todos esses problemas são apresentados na série em personagens tridimensionais, que são desenvolvidos continuamente.

Não neguemos, brasileños: nosso país não está representado apenas no personagem Rio, o volante brasileiro extremamente sacana. Em cada pedacinho de Nueva Toledo está ali um latino – e, como somos sim latinos, está um pedacinho de nós também.

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E isso é algo a se pensar. A construção dos personagens complexa, como apenas uma sitcom pode fazer (pretendo desenvolver isso melhor depois), nos traz o que acredito ser a mensagem principal da série: todos os latinos convictos que se veem como latinos são moralmente íntegros. São típicos Letras Cs: pessoas normais, “tiozões” que apenas querem continuar vivendo da sua maneira justa e tranquila. Mas cuja envergadura moral é a mais intrínseca delas: o personagem do Félix é o esteriótipo claro e clássico.

Grande entusiasta do seu time do coração, Félix cresceu junto do time. Foi jogador do mesmo, assistiu à subida de divisão. Tem uma família um tanto desestruturada, que parece ser desestruturada pela sua carga de trabalho. Porém, tem uma esposa amorosa e dois filhos adolescentes, que acabam tratando-o como empecilho; Félix é amoroso com eles, porém o trabalho – seja no Cuervos seja no Carneros – acaba consumindo muito sua atenção.

Acredito que o momento da série em que a grandeza moral de Félix fica mais proeminente é quando o mesmo descobre que a sua esposa está trocando nudes com outro homem. A simples resignação, o reconhecimento de que provavelmente a culpa é sua e a atitude de virar para o lado e dormir no sofá – por conta própria – é significativo: ele não esperneia, não culpa a esposa, não é violento. Ele reconhece seus erros – mas ignorá-os por um momento, afinal, sua vida real é o futebol.

Esse exemplo mínimo é seguido por inúmeros outros, onde a grandeza moral dos personagens é transmitida através de suas atitudes. Seja o Goyo assumindo o seu relacionamento com uma mulher trans, Isabel reconhecendo suas falhas na prisão e liberando os jogadores dos seus contratos, o reconhecimento do amor de Potro por uma atriz pornô, a virada histórica do time quando da aposentadoria de Rafa Reina, Rio liderando o time para a subida de divisão. Todos os personagens têm seus erros e acertos, mas seus acertos entram numa esfera moral onde o que determina o certo e o errado é a noção de amor por sua comunidade e seus parceiros. Amor pela família, seja ela a tradicional, seja ela a comunitária.

Claro que existem suas exceções. Chava Iglesias e Aitor Cardoné, por exemplo, são personagens cuja moral é invertida. Não existe reconhecimento de erros, nem esses tons de cinza que perpassam os outros personagens: e o que é mais interessante, é que são os personagens mais distantes do “futebol”. Chava admite em determinado momento da série que nunca gostou realmente de futebol; e a preocupação sexual de Cardoné – caracteristicamente um ninfomaníaco – combinada com seu ego exorbitante desfoca-o do jogo.

O compasso moral da série é o futebol. Club de Cuervos mostra-nos como o povo latino americano é sofrido, tem suas muitas falhas e erros, mas é um bastião moral no que importa: o reconhecer dos próprios erros, e a luta para consertá-los.

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